A MÁQUINA DE TECLAR PENSAMENTOS | THE MACHINE THAT TYPES OUT THOUGHTS (Luís Robalo)

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-“Estamos sempre a pensar”.
-“E a respirar”.
-“Não os conseguimos deter”.
– “Poderiam ser gémeos. Falta um, desvanece-se o outro”.
– “Bem visto”.
– “Há quem diga ter ouvido de conhecidos, que conhecidos seus conseguem a interrupção do pensar. Nas minhas relações não tenho relatos disso, e desconfio”.
– “Esses testemunhos são gabarolices de ambiente social. Num jantar tudo se diz para atrair atenções”.
-“voltando ao tema, a apneia para mim é um tema sem discussão: malabarismos de circo. Treina-se e há artistas bons.”
– “sim, isso são truques. Agora, fechar a torneira da fonte dos pensamentos!”.
– “Atingir o vazio da impermanência como dizem os simpáticos budistas, é uma impossibilidade humana”.
– “Estou em crer que sim. Os que conheci, praticantes das técnicas da concentração no respirar, no estado meditativo pareciam contentes, daí a estarem no reino do nada, como o podemos saber? ”
– “Já pensaste no número infinito de pensamentos que temos numa vida?
– “Fico zonzo de pensar nisso”.
-“Nunca os conseguiríamos contar e o mais intrigante, li algures, é que quase todos têm um sabor triste”
– “Desconhecia que os pensamentos tinham sabor e muito menos que eram tristes? Não estás a ser pessimista?”
– “Eu tenho pensamentos de grande prazer”
– “Isso é o “gosto de boca” que fica depois de serem pensados”
– “Há mesmo pensamentos que fazem frases belas. Já construí algumas”
– “Pois há. Mas esses são como foguetes, escapam-se num apagar de vela.
– Os poetas são os grandes caçadores dos pensamentos belos, mas são escassos os poetas”
– “É, os poetas são os especialistas dos pensamentos”
– “Os pensamentos não têm consciência nem vida própria, nem a noção do que valem. Vivem, quando lhes prestamos atenção, porque senão eram um bando macambúzio de mortos-vivos”.
– “E pelo que me dizes são dados à melancolia”
-“Só é feliz quem se realiza. Sabes de algum que se tenha realizado, tal como foi pensado?”
-“Não estou a perceber”
-“Sim, a concretização integral de um pensamento, pelo pensador, seguindo à risca o manual de instruções? Materializar uma amálgama de abstracto, com todos os pormenores, sem sobrarem parafusos, fazer a construção e os acabamentos, sem peças a mais no final?”
– “ Consta que os artistas e dizem que também os matemáticos, estão próximos disso.”
– “São os que estão mais perto da fronteira do conhecimento, mesmo assim, têm bastantes crises de frustração.”
– “Estou de acordo. Há mais melancolia nos artistas que sorrisos rasgados.”
– “ A verdade – se se pode dizer assim – é que mesmo estando mais próximos da descoberta dos códigos das abstrações, pouco mais produzem que dois ou três pensamentos decentes ao longo das suas vidas.
– “e acredita, eles são reconhecidos como os melhores fabricantes de pensamentos!”
– “E nós? Não chegamos lá?”
– “Nós, é como respirar: é um automatismo, não acrescentamos pitada de vontade na gestão do sopro, e é por isso que não te lembras de um sopro – inspiração-expiração -, que te tenha levado aos píncaros do universo. No entanto são fundamentais à vida.”
– “fiquei baralhado”
– “Com os pensamentos é o mesmo: encavalitam-se cá dentro, são catapultados pelas teclas da máquina de teclar pensamentos, a tua cabeça faz o trabalho, mas não dás opinião prévia.”
– “ E depois, quando se libertam de nós, têm vidas dissolutas, sempre nos limites, nos excessos”
– “Voltando ao sopro, e insistindo, não te lembras de num em especial pois não?”
– “Se há coisas em que não penso é no respirar e apesar de me manter vivo, não posso dizer que pense nisso com frequência, nem com um prazer especial”.
– “Pois, se há coisas em que não pensas tu e eu – que somos nós – e os outros, é no pensar. Como disse, pensar e respirar têm a mesma natureza”.
– “Sendo assim porque pensamos, se não somos capazes de pensar bem, mas pelo contrário respiramos competentemente?”
– “Pensamos porque a nossa cabeça é uma máquina de costurar pensamentos. Executa a função por obrigação biológica. Tivesse sido inventada para não pensar e seria devastador para os que desfrutam da sua companhia, e o corpo só fazia asneiras”
– “O vazio é a não matéria mais enfadonha que existe.”
– “Para não complicarmos a conversa, nem vou convidar Deus para este monólogo, que é um pensamento soberano – a jorros na minha cabeça – a que tento dar a mesma importância dos outros.”
– “Porquê, não o respeitas?”
– “Não desrespeito ninguém, mas entranhou-se-me de pequeno uma história do pecado e agora, quando me lembro dele, inibe o meu projecto de liberdade”.
-“Como foste tu a chamá-lo para a conversa, se negas deus, como podes viver?”
-“Abro mais portas do que fecho, mas tenho cuidado em não falar sobre o que não sou capaz de nomear”
– “E estamos a desviar-nos do assunto que é sobre a estranheza da máquina que fabrica os pensamentos. Deixemos as utopias de lado. O inatingível é um tema demasiado sério”
– “Calculava que não irias responder. Desculpa, de repente julguei que não se podia falar de pensamento sem convidar deus.”
– “Podes fazê-lo, mas vais ouvir o silêncio. Isto é uma conversa de homens e assim deve continuar”.
– “Aceito a tua posição, acabaríamos por desentendermo-nos”.
-“É que sendo impotentes para atestar o depósito da felicidade – ele está quase sempre na reserva -procuramos consolo em delírios”.
-“E quem fabrica as utopias, perguntas tu?”
-“A máquina de teclar os pensamentos?”
– “É essa a diferença fundamental que nos distingue dos outros seres: o sonho”.
– “O sonho? Saltas de Deus para o sonho e quase não me deixas respirar.”
– “Sim, eles são igualmente pensamentos, mas de sintonia fina.”
-“Com essa fiquei “knock—out”: sintonia fina?”
– “Sim, são a flor de sal dos pensamentos, a música das esferas, a epopeia heróica que os homens imaginam realizar”.
– “Raramente os entendo – têm narrativas extravagantes -, mas posso afirmar que gosto mais dos sonhos do que da maioria dos pensamentos em acordado.”
– “Não te admires, eles são muito mais reais que os outros, apesar de excêntricos. São apuramentos dessa máquina catapulta, ou lá como se chama!”
– “Voltando aos pensamentos. Disseste que no tempo da nossa vida não temos mais do que um ou dois jeitosos. Isso não é constrangedor? O que andamos a fazer: respiramos para nos mantermos vivos – sem outro benefício – e pensamos mal, quando é a actividade mais importante o que nos distingue dos outros”
– “Não andamos a fazer nada de interessante. A existência é um jogo de perspectivas, projectadas em espelhos que deformam a realidade.”
– Pensamos, porque temos na porção final e mais elevada do nosso corpo uma máquina histérica de teclar pensamentos.”
– “É pena, que seja assim”
– “E quando as teclas param e deixa de funcionar, entramos na fase mais misteriosa da vida, e também das que mais medos traz: a eternidade ausente de pensamentos.”
– “Essa temporada eterna parece-me uma proposta decente. O sossego, sem mais preocupações..” Beber o âmbar do esquecimento definitivo de tanto contratempo passado
– “Pois é, mas se perguntares ao mais culto ou ao mais rijo como o mais rijo e denso dos calhaus, dir-te-ão o mesmo: a eternidade sem pensamentos é a morte. E mal ou bem, todos temos a esperança inconfessada que a foice se esqueça de nós pela imortalidade fora”.
– “ viver a imortalidade deve ser um tédio”
– “Pois eu, mesmo com pensamentos chuvosos, prefiro-me vivo a passar o tempo nu da cabeça.”
– “Ninguém quer passar a eternidade esticado numa nuvem entretido no ócio do nada: o tédio dos tédios”.
– “Tens razão, apesar de tudo a existência de um pensador é muito mais simpática, do que a sisudez do buraco-negro eterno.”
– “Isso é metafísica, ou depressão, não me dou bem com nenhuma, por junto ou separado.”
– “a minha opinião definitiva para arrumarmos o assunto, os pensamentos, mesmo enfadonhos, são a razão de sermos. Mesmo mancos e pernetas é que, como te cumpririas, se não pensasses?”
– “É isso! seríamos amorfos – uma palavra que seca a boca. Como poderíamos justificar a nossa condição de sermos os únicos seres com uma máquina de escrever colada a nós?”.
–“Ainda gostaria de saber se há, escondido nalgum reposteiro do nosso cérebro, um redactor principal para tanta escrita?”
– “Não acredito em teorias da conspiração! É só uma máquina, com vida própria”
– “Ou comandada por fios invisíveis!”

……..

A – We’re always thinking.
B – And breathing.
A – We can’t stop them.
B – They could be twins. One is gone, the other withers away.
A – Well put.
B – Some say they’ve heard from people they know that know people who…
A – Such testimonies are no more than people bragging in a social environment. People will say just about anything to get others’ attention at a dinner party.
B- Back to topic. Apnea is really not a topic for discussion: circus jugglery. You can train it and there are some good artists.
A – Yes, that’s just tricks. Whilst shutting down the spring of thoughts…that’s a whole different matter.
B – Reaching the emptiness of impermanence, like the nice Buddhists say, is a human impossibility.
A – I believe so as well. The practitioners of focused breathing techniques that I’ve met looked happy when they were in their meditative state. But to say they were in the realm of nothingness, I can you tell?
B – Have you thought about the infinite number of thoughts we have in a lifetime?
A – I get dizzy just thinking about it.
B- We’ll never be able to count them! And the most intriguing is, I’ve read somewhere, they all taste sad.
A – I didn’t know thoughts had taste, let alone that they were sad? Aren’t you being a pessimist?
A – I actually have very pleasant thoughts.
B- That’s just the sweet taste that lingers after those thoughts.
A – There’s even thoughts that form beautiful sentences. I’ve formed a few.
B – Yes there is. But those are like flares, they escape and vanish, just like when you blow off a candle.
B – Poets are the great hunters of beautiful thoughts. But poets are scarce.
A – It is true. Poets are the great experts of thought.
B – Thoughts have no consciousness or life, or idea of their worth. They live when we pay attention to them. Otherwise they’d be a gloomy pack of undead.
A – And you tell me they are prone to melancholia.
B- Only those who are accomplished are happy thoughts. Have you ever heard of any thoughts that were ever accomplished, exactly like it was thought out?
A – I don’t understand.
B – Yes, the full realization of a thought, by the thinker, following the instructions’ manual to the letter? To materialize an abstract amalgam, with all its details, all screws and pieces in place, constructing it, leaving no surplus of pieces in the end?
A – Apparently artists, and some say mathematicians as well, are very close to it.
B – They are the ones closer to the boundaries of knowledge, and still they suffer bouts of frustration.
A – Agreed. There is more melancholia than wide smiles in artists.
B – The truth – if you can call it that – is that even though they are closer to cracking the codes of abstractions, they produce little more than two or three decent thoughts throughout their lives.
B – And, believe me, they are recognized as the best makers of thoughts!
A – What about us? Can’t we get there?
B – For us it’s like breathing: It’s automatic, we have no will in managing breath, and that’s why you can’t remember a breath – inhale-exhale – that has taken you to the end of the universe.
And still they are fundamental to life.
A – I’m confused.
B – It’s the same with thoughts: they overlap inside, are catapulted by the keys of the typing machines, endlessly typing out thoughts your head does the job but you have no opinion over it.
A – And then, when they’re released from us, they have dissolute lives, always on the edge, always in excess
B – Back to breathe, I insist; you don’t remember one in particular, do you?
A – If there’s something I don’t think about is breathing and, even though it keeps me alive, I can’t say I think about it frequently or with any special pleasure.
B – Yes, if there’s something you and I – which means us – and the others don’t think about is thinking. Like I said, thinking and breathing are of the same nature.
A – That being said, how come we think if we’re not capable of thinking well, but on the contrary breathe competently?
B – We think because our mind is a thoughts’ sowing machine. It executes its function through biological obligation. Had it been invented to not think and it’d be devastating to those who enjoy its company, and the body would only cause mischief.
A – Emptiness is the most boring non matter there is.
B – So, let’s not complicate the conversation any further, I’m not even inviting
God to this monologue, (who is) a sovereign thought – pouring out of my head – to which I try to give as much importance as to others.
A – Why, don’t you respect him?
B –I disrespect no one, but I’ve assimilated the story of sin since I was a child and now, when I think of Him, it limits my project of freedom.
A – If you were the one bringing Him to the conversation, if you deny God, how can you live?
B – I open more doors than the ones I close, but I’m careful not to talk about what I can’t name.
And we’re deviating from the subject of the weirdness of the machine that fabricates thoughts. Let us leave utopias aside. The unattainable is too much of a serious subject.
A – I thought you wouldn’t respond. I apologize, for a moment I assumed you couldn’t talk about thought without inviting God.
B – You can do it, but all you’ll hear is silence. This is a men’s conversation and it is how it’s supposed to stay.
A – I accept your position, we would end up getting in a fight.
B – It’s just that, being incapable to fill up the happiness tank – which is almost always running on fumes – we seek solace in delusions.
And who manufactures utopias, you ask?
A – The machine that types out thoughts?
B – That is the fundamental difference that distinguishes us from the other beings: dream.
A – Dream? You go from God to dream without giving me time to breathe.
B – Yes, they’re thoughts all the same, but of a finer tune.
A – You knocked me out with that one: finer tune?
B – Yes, they are the fleur de sel of thoughts, the music of spheres, and the historical epic men imagine to take.
A – I rarely understand them – they have extravagant narratives – but I can say I prefer dreams to most of my waken thoughts.
B – You shouldn’t be surprised, in spite of being eccentric, they’re more real than other thoughts. They are improvements of that catapult machine or whatever it’s called
A – Back to thoughts. You said that in our lifetime we have no more than one or two decent ones. Isn’t that awkward? What are we doing: we breathe to keep ourselves alive – with no other benefit – and we think poorly, which is our most important task, which distinguishes us from others.
B – We’re not doing anything interesting. Existence is a game of perspectives, projected in mirrors that deform reality.
We think because we have, in our final and most elevated position of our body, a hysterical machine that types out thoughts.
A – A shame that it is like that.
B – And when the keys stop typing and it stops functioning, we enter the most mysterious phase of life, and also the scariest for us: an eternity devoid of thoughts.
A – That eternal season seems like a decent proposition. Quiet, no more worries… Drink the amber of oblivion of so many past setbacks.
B – I know, but if you ask the most cultured or the toughest, like the toughest and densest rock, they’ll all tell you the same thing: eternity with no thoughts is death. And, for better or worse, we all have an unconfessed hope that the scythe will forget us throughout immortality.
A – Immortality must be boring.
B – I know. Even with rainy thoughts I prefer living to being naked in the head.
Nobody wants to spend eternity stretching in a cloud entertained with nothingness’ idleness: boring boredom.
A – You’re right. In spite of everything being a thinker is much kinder than the seriousness of the eternal black hole.
B- that is either metaphysics or depression. I’m no good at dealing with any of those. Together or separately.
My definitive opinion, to wrap up the subject; thoughts, even the most boring, are the reason for us to be, even if they’re limp and lame. How would you reach fulfilment if you didn’t think?
A – That’s it! We’d be dull – mouth drying word. How could we justify our condition of being the only beings with a typewriter attached to us?
I’d still like to know if there is, hidden in behind dome curtains in our brain, a typist for all that typing.
B – I don’t believe in such conspiracy theories! It’s just a machine, with life of its own.
A – Or controlled by invisible threads.